Rubem Alves Bagunça |
Você me pergunta sobre o que fazer para curar-se de uma terrível doença chamada bagunça. A bagunça cria situações terríveis: livros perdidos, objetos desaparecidos, cartas não respondidas, aniversários e casamentos esquecidos, contas não pagas. Quando a bagunça só machuca a gente, o sofrimento é suportável. É só a gente que sofre as consequências. Mas quando tem a ver com compromissos não atendidos, paira sempre a certeza, na cabeça de quem foi vítima, de que foi falta de atenção, grosseria. Eu poderia lhe indicar uma lista de livros com conselhos práticos do tipo " cada coisa em seu lugar, um lugar para cada coisa"; anote tudo numa agenda, etc. Mas eu lhe asseguro: esses conselhos são inúteis. Acho mesmo que bagunça é doença incurável.
Minha mãe fracassou como educadora. Ou eu fracassei como aprendiz. Enquanto eu morava na casa dela, ela lutou. Argumentou. Ficou brava. Inutilmente. Vez por outra eu me enchia de vergonha e de boas intenções e dizia: "Vou por tudo em ordem". As boas intenções duravam por poucos dias. Logo eu me via de novo afogado isso mesmo, afogado; o bagunçado vive afogado por sua própria bagunça - esforçando-me por me manter à tona da confusão das minhas coisas.
Recebi, faz tempo, um presente de uma mulher que desconheço. Veio embrulhado em papel bonito. Abri. Era um quadrinho bordado a ponto de cruz. Está pendurado à minha frente: "Deus abençoe esta bagunça". Ela nunca havia entrado no meu escritório mas é claro que ela suspeitava...
Bagunça de idéias não é coisa má. O inconsciente é uma bagunça infernal, idéias e imagens dançando o tempo todo numa orgia de desordem incontrolável. É dessa bagunça que nasce a literatura. Quem lê nem imagina! Vê as idéias organizadas, bonitinhas, uma atrás da outra. Não tem a mínima idéia do caos de onde nasceram. Para meu consolo Nietzsche dizia que o segredo da criatividade é ser rico em contradições. Os textos sagrados dizem que no princípio era o caos; foi do caos que nasceu a beleza. Com Deus, tudo bem, porque ele não se esquece de nada. Mas o problema é com a gente. Esquecemos e com o esquecimento ferimos sem querer pessoas que amamos.
A psicanálise tem a mania de explicar todo esquecimento como ato de uma vontade inconsciente. A gente esquece porque, no fundo, "quis" esquecer. Quando o paciente se esquece da sessão de análise ou se esquece do que ia dizer, o psicanalista diz logo: "Aha! Se você esqueceu e porque queria esquecer!" Discordo. Nem tudo pode ser explicado psicanaliticamente. Como se sabe Freud era um fumador inveterado de charutos. Sandor Ferenczi, seu discípulo e colega, ficava incomodado com o hábito fedorento do mestre, e se punha a fazer interpretações psicanalíticas orais-fálicas do charuto, ao que Freud respondia: "Sandor, por vezes um charuto é só um charuto..."
Por vezes o esquecimento não esconde nem desatenção e nem grosseria: é apenas um resultado dessa doença que se chama bagunça.
Comigo mesmo acaba de acontecer uma coisa muito ruim. A "Escola de Educação Básica e Educação Profissional "N. S. das Dores"", de Artur Nogueira, preparou um espetáculo de ginástica e dança sobre um livro meu, o "Navegando". Enviaram-me convite para estar presente. Eu tinha de estar presente. Coloquei o convite da escola na pilha sempre crescente de cartas que se encontra à esquerda da minha escrivaninha. Pensei: vou fazer as coisas urgentes que tenho de fazer imediatamente, e logo responderei. Afinal de contas, havia tempo bastante. Ao mesmo tempo, eu estava comprimido no preparo de falas que deveria dar em Portugal. Enquanto isso, a pilha continuava a crescer. E o convite ficou submerso. E eu me esqueci. Não respondi. Não compareci. Não pude sentir alegria. Não pude agradecer. A escola tem todo o direito de pensar que foi desatenção. Um convite como aquele não pode ser esquecido. Mas eu me esqueci. Me esqueci por causa dessa doença incurável chamada bagunça. Estou, então, publicamente, pedindo perdão por um ato que não pode ser perdoado: o esquecimento de um convite de amor.
E vem você, me pedindo conselhos sobre como curar a sua bagunça. Depois que eu curar a minha lhe passarei a receita. Mas, para dizer a verdade, acho que essa doença não tem cura...
Rubem Alves